Thursday, August 29, 2013

   Cinematograficamente noir. Papel de parede verde pálido, cortinas de tafetá. O tapete persa, velho e poído, sobre a madeira carcomida. Janelas entreabertas, marcas de luz pálida e fria desenhadas no chão. E poeiras flu-tu-an-tes.
   Cama. Olho. Ar. Sangue fresco nos lençóis, nos travesseiros, pele.  Icebergs, faca,  caninos afiados. Nada. Cheiro frio de sangue, fresco, no ar.  A mão na seda, cetim. Um gosto sintético poliéster nas cavidades esponjosas aveludadas e úmidas do músculo língua. Outro passo. Um.
   Atravessar a sala como um barco em noite de tormenta. Poeiras flu-tu-an-tes. Madeira escura, veludos, mesa. Família no café da manhã. Vozes, sorrisos, dentes brancos, suco de laranja, geléia, jornais do dia, café. Nebulosidades.  E ele, vindo do lado de lá, atravessando o espaço, copo de leite na mão, lábios acolchoados, movimentos  quase angelicais. Olho no olho. Eu e o olho. Poeiras flu-tu-an-tes no ar. Punhais, facas, icebergs, caninos afiados. Choque de metal contra metal. Sangue, verdes pálidos, tafetás. A compreensão de cumplices, contratos em pergaminhos, carrasco e vítima. O torcer de quadril em direção oposta. Madeiras, veludos, porta, rua, escapatória.
    E poeiras flu-tu-an-tes no ar.
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