Saturday, April 20, 2013

   Primeiro era algo assim como uma miragem distante. Um desejo incerto e vago, uma coceira permanente, a colonização de Marte. Depois o desejo aumentou, menino pré adolescente perturbado por sonhos molhados com os lábios fartos e os quadris acrobáticos de Elvis Presley, impossíveis, inatingiveis, pra sempre fora do alcance.
   Depois o desejo virou possibilidade muito remota, uma chance em um bilhão de possibilidades, loteria, sorte grande. Artigos em revistas, fotos, filmes, o Natal frio e misterioso visto pela tela do Fantástico nos domingos calorentos e suados dos dezembros da periferia do Brasil. Um começo de flerte, estudar o objeto do desejo: As cores, as roupas do desejo, a língua, os discos pra ouvir, os relatos de viagem. Tesão unilateral, platônico, amor que não ousava dizer seu nome com medo de que todos os castelos se desmanchassem alí no ar rarefeito das coisas que não são.
   Então, com o passar do tempo, a coceira, sem avisar, foi aos poucos virando urgência, Rock and Roll, Punk Music. Tempo de fugir com o circo, com o Grêmio Recreativo das possibilidades impensáveis. Guias turísticos, agências de viagem, naves espaciais.
    Mas as viagens intergalácticas ainda eram puro futurismo. E o menino ardendo de uma paixão marciana.
    Assim, ele virou profeta de si mesmo, um Noé obcecado, egoista e febril pouco preocupado com os outros animais, lunático confundindo desejos com desígnios divinos, destino, as mesmas cartas, o mesmo tarot.
Documentos de viagem, diplomacia interestelar, ground control to Major Tom.
   Os desejos platônicos não respeitam burocracias, se infiltram pelos canos dos esgotos mais fedorentos das ditaduras mais sangrentas, sem notar, sem entender. Os desejos são burros, imbecís, idiotas como pedras fritando sob um sol de caatinga em seca. E por serem assim tão burros, não conhecem limites, são livres, inventam possibilidades por acidente, decifram códigos mesmo sem saber ler.
Cápsula, veículo para navegação sem satélite.
   Restos de automóveis anacrônicos, velhos casacos de pele animal, ferros velhos em geral, física quântica, mecânica de galáxias, a engenharia enigmática das escapadas, a transposição de muros de prisão. E  mapas. Conflitantes, opostos, hieróglifos. Línguas de tribos violentas de deuses astronautas. Binóculos, bússolas, lunetas, astrolábios de improviso. A cápsula de casco prateado, enferrujado, remendado. Pequeno receptáculo, frágil e atrevido, para conter um desejo voraz e trêmulo, bomba de fabricação caseira.
Viagem, salto, vertigem.
  Combustível propulsor contrabandeado, bagagem de essenciais mínimos, relógios, compassos, rádio transmissor. E o estrondo do desejo ao se lançar no ar. Fumaça, poeira, 3, 2, 1... Um clarão de fim-do-mundo, um tremor de terra em transe, respiração de faca cortando o estômago. E um projétil prateado cortando o céu de chumbo quase sólido. Bala de metralhadora furando a carne/atmosfera. E depois um desejo desaparecendo no infinito, indo dançar com Elvis Presley em Marte, ácido, ecstasy, planeta Blade Runner, civilização superior frenética, terra de todos os desejos insanos e impossíveis.
  Ou se perder no caminho, explodir em meteoros, glitter, David Bowie,  pó de estrela pra sempre flutuando no espaço siderado sideral. Pó de desejo, pó de impossivel, pó de coisas que não podem ser.
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