Thursday, August 19, 2010

Milonga del angel. As janelas são enormes, gigantescas, e lá fora faz um cinza triste, a chaminé impotente do outro lado da rua, parada, quieta, sem respirar fumaças mornas. Os telhados lá de fora são todos escuros, lisos, escorregadios de chuva. Milonga del angel. Aqui dentro, as paredes são altas e de um branco cansado e fraco. Os ponteiros gigantes do relógio na parede se movem vagarosa e pesadamente. A superficie da bancada na cozinha abriga os restos do jantar de ontem, panelas, copos, garrafas, facas, garfos, a máquina de espresso soberana prata brilhante, um minusculo elefante de louça porta incenso na murada da janela.
 Os sofás. Os sofás e poltronas de couro marron quase preto, confortáveis, firmes, bons de se tocar, de se deixar. São sofás inteiros, confiantes, como ilhas, terra firme depois de uma viagem longa por continentes além de distantes, almofadas coloridas jogadas sem sentido ou propósito sobre as ilhas/couro.
Uma luz discreta, fria e cirúrgica, escapa de entre as nuvens chumbo do outro lado de lá e buscam abrigo aqui nesse cenário, micro universo, bolha. As fotografias na parede reagem mal à luz, são de gosto duvidoso e foram provávelmente compradas num daqueles mercados pseudo-chic numa tarde apressada de sábado de sol. O espelho, girassol gigante, insiste em refletir a desordem home sweet home, restos de chocolate cake no prato branco sobre a mesa branca redonda, caneca de chá, Nina Simone, Nirvana. As velas apagadas pela casa, poeira suspensa no ar. Tudo longe muito longe. Bolha. O mundo é uma bolha, alguém disse antes, ou as pessoas são bolhas. Bolhas dentro de bolhas dentro de bolhas, rolando por aí, flutuando eternamente pelo universo. Solidões em embalagens transparentes levitando no ar. Solidões desesperadas qualquer toque. Aquele toque que as iria romper e destruir numa explosão brilhante silenciosa no céu. O tapete branco algodão felpudo no chão. O tapete não sabe de bolhas, pessoas, solidões. O tapete é. Nós flutuamos no ar.
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