Sunday, December 08, 2013

Sobre a sinuosidade das escadas amarelas nas tardes ensolaradas de inverno

   "J'avoue j'en ai bave pas vous mon amour
 Avant d'avoir eu vent de vous mon amour
 Ne vous deplaise
 En dansant la Javanaise
 Nous nous aimions
 Le temps d'une chanson"
 (La Javanaise - Serge Gainsbourg)



Sol frio de domingo. Um certo mistério no ar. Os pés pisam suaves o chão.  London Overground. O trem deslizando leve e silencioso nos trilhos, o vazio ocupando o ar. A estação de chegada, as ruas vazias e limpas, de calçadas imaculadas, o brilho enganoso dos raios solares de inverno nas plantas dos canteiros. Os pés pisam suaves no chão. Docklands, Denmark Dock, um outro lado da mesma cidade, o rio.
   Escadarias amarelas no branco sólido do retângulo. Art Deco do século 21. Os pés sobem suaves os degraus amarelos, as ruas de calçadas imaculadas desaparecendo lentamente no que já não é. Os dedos finos nos botões do interfone. A escadaria amarela se contorcendo em curvas íngremes em direção ao que já foi.
   O corredor branco, o dedo no botão do elevador. "Sexto andar", ele disse. "Sexto andar", ele pensou. O frio prateado do interior do elevador. "Sexto andar", ele repetiu. O deslizar mudo da porta do elevador no sexto andar. Os pés pisam suaves o mármore do chão. Sexto andar. "Flat 36", ele pensa, "flat 36".
    A porta entraberta, os pés pisando suaves o chão. Ele olha ao redor, procura o outro. Observa as tábuas corridas do chão, as paredes impecávelmente brancas, os sofas de couro preto, angulosos, arquiteturais. Ele observa o desleixo casual, um sapato sobre o tapete ao lado de um sofa. E a cidade espetacular do outro lado da parede de vidro, o sol nos prédios espelhados do outro lado se refletindo nas águas tumultuadas do Tâmisa. Vertigem, penhasco, labirinto. E o suave toque dos pés no chão.
   Ele caminha pela sala, silêncio, ele passa pelo quarto de paredes brancas, de lençóis brancos displicentes sobre a cama branca. Ele nota o branco do chão com o toque suave dos pés.
   O outro espera de costas na varanda branca de muros de vidro do outro lado da sala. Ele anda com seus pés suaves até desconhecer o outro. "Gostou da paisagem?" Pergunta o outro, apontando para o rio e para o labirinto de espelhos do outro lado. "Não é você", ele pensa sem dizer, sorrindo pro outro e pra paisagem espetacular. 
   A paisagem, os sofas, o branco das paredes e o toque suave e sutil da pele do outro. Labirinto. Abismo. "Não é você", ele repete para si mesmo, "não é você".
    Art Deco século 21. O vento no sol nas águas do rio. O toque da pele, "não é você", pele, pele, pele. O deslizar do cachecol em direção ao chão branco sob a cama branca sob os lençois brancos displicentes. Pêlos ásperos, musculos se contorcendo em espirais em direção ao que já foi, saliva, lâminas línguas, reentrâncias, abismos. Dentes brancos tocando sinuosamente o pêlo negro, mucosas, paus. Ruas vazias, sexto andar, paredes brancas. "Não é você", ele pensa de novo, sapatos negros no chão. Facas afiadas, fuidos corporais, dedos, côxas, suores. O toque do outro, a aspereza superficial da pele do outro, o outro, o cheiro do outro. A paisagem quase vegetal dos pêlos do outro, o sol tocando a paisagem através da parede de vidro, o rio. Os pés em convulsões suaves sobre a paisagem.
   A porta entreaberta no sexto andar, "flat 36", ele se lembra, o mármore do corredor tocando os pés. O dedo do outro no botão do elevador, o cheiro do outro suave no prateado do elevador. E as escadarias amarelas se contorcendo sinuosas em direção às ruas limpas de calçadas impecáveis, o clique do isqueiro, a fumaça, o cigarro áspero tocando o lábio, o vento, o rio, o outro lado da cidade, o cachecol ainda esquecido no chão branco do quarto branco. Docklands, Denmark Dock. O sol frio da beira do rio dissipa o cheiro do outro no ar. Ele expira a nicotina e repete num sussurro: "Não é você".
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