Sunday, December 08, 2013

   O olhar cortante feito navalha, língua afiada de cascavel, pele fria de réptil. Cinismo escorrendo pelos cantos dos lábios, deboche, crueldades variadas.  Atitude científica, emoções analizadas em microscópios de última geração. E um gosto azêdo, amargo. A garganta seca, rascante, peixe salgado ao sol.
   Existem dias assim. Quando todos os rancores e raivas despertam de seu sono prolongado e profundo e sobem à superfície de mim. E tudo é escuro, tudo é coágulo, hematoma, tumor. E eu rio debochado de tudo. Desacredito de mim. Tudo é patético nesse mundo freak show. Nas minhas veias corre o sangue velho enferrujado dos meus avós, gangrena, mágoas, revanches ancestrais.
    Séculos de lágrimas, suores e espermas desperdiçados em vão. Por que o mundo é dos metálicos oleosos, dos que não possuem alma, coração. E a experiência humana falhou, ridícula, burra e equivocada.
   E eu rio debochado, ácidos cítricos nas artérias, corrosivo, lamina afiada e fria na pele quente, na carne crua. Desprezo e ódio, poeira e pó. A secura de sertão corroendo as entranhas. O mundo é cão. As criaturas são ruins. O universo inteiro foi um acidente infeliz. Somos todos filhos do caos. Insignificâncias vagando desorientadas pelo tempo. E nunca entendemos nada.
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