Saturday, October 05, 2013

   Hoje eu acordei com a pior dor de cabeça da história da medicina moderna, cortante, raivosa, inclemente. E nauseas, muitas nauseas. Me arrastei da cama e fui lá embaixo na cozinha tomar café com torradas. A dor e as náuses pioraram. Tomei os últimos analgésicos da casa e voltei pra cama tentando não vomitar, esperando os efeitos do remédio e me fingindo de morto pra não continuar em agonia.
   Meia hora depois, fui sacudido pela campainha. Era o pedreiro polonês vindo consertar o banheiro da suite da nossa adorável Duquesa de Deptford. O moço falava aos berros, batia martelos, esfregava lixas e serras num show de rock & roll do capeta.  Na cama, entre gemidos, minha cabeça latejava, minha vista embaçava e eu começava a considerar as muitas vantagens de uma morte súbita. Felizmente, depois de uma hora de muito barulho, o problema não pôde ser resolvido e o moço se despediu(ainda aos berros) e prometeu voltar na semana que vem. A Duquesa então, se mandou pro Broadway Market com Josephinne para ver as novidades de todo sábado.
Eu continuei na cama, marejado, tonto, enjoado, irritado, quase tendo um ataque de nervos.
   Sem conseguir voltar a dormir, decidi me levantar, tomar um banho e tentar levar a vida apesar de tudo. Coloquei minha Bermuda estampada, minha camiseta do Mickey Mouse(minha favorita). Estava de volta na cozinha, forçando os olhos inchados tentando ler os jornais online, quando as insanas voltaram cheias de sacolas e animadíssimas, depois de um bom café da manhã no coffee shop das lésbicas no Mercado. Josephinne, sempre um amor,  deu uma olhada no meu modelito e mandou na lata: "Eu sei que os tempos são de uma crise econômica medonha, mas jamais imaginei que seria necessário, para você, ter que ir trabalhar num circo."
   Eu arrastei minhas muitas mazelas de volta pra cama, achando que lá estaria à salvo desse mundo de barulhos infernais e criaturas cruéis. Apenas pra ser novamente sacudido violentamente pela própria duquesa, munida de furadeiras(sim, no plural), parafusos diversos e outros instrumentos estranhos, determinada em finalmente colocar os painéis da janela do meu quarto, que diga-se, haviam passado meses sob a cama esperando que a criatura achasse ânimo. E ela achou. Logo hoje.
Foi um carnaval nas entranhas do inferno, com mais marteladas, xingamentos e muita poeira cobrindo todos os móveis e todas as mínimas reentrâncias do meu quarto. Quarto esse que eu passei o dia de ontem limpando e polindo. E a duquesa cada vez mais animada e satisfeita com a própria habilidade, como se esse tipo de coisa fosse extremamente divertida, hilariante.
   Já estávamos no meio da tarde. E depois de limpar tudo de novo e colocar tudo de volta em seus devidos lugares, incluindo as ferramentas do trabalho da nossa aristocrata e já quase desmaiando de dor, rancor e ódio, eu parti pra farmácia mais próxima, na Bethnal Green road, pra comprar analgésicos, antiespasmódicos, antiácidos e os antidepressivos receitados pela Doctor Taylor na semana passada e que eu estava enrolando pra comprar por pura preguiça.
Comprei os remedios e fui ao supermercado comprar Coca-Cola, que sempre ajuda quando tenho enjôo. No caixa eu me lembrei que havia deixado metade dos remedios na farmácia e voltei correndo buscar.
Chegando em casa, percebi que minhas chaves haviam misteriosamente desaparecido no caminho de volta. Lá fui eu refazendo o caminho olhando pro chão, gemendo de dor, procurando as chaves sem resultado. No supermercado ninguém sabia de chave alguma perdida. Desesperado, eu corri até a farmácia, antes que fechasse. Felizmente as chaves ainda estavam no balcão, onde eu as havia esquecido.
   Já definitivamente em casa, a duquesa e Josephinne estavam ocupadas na cozinha, copos de champagne nas mãos, preparando comidinhas deliciosas pra dinner party que organizaram pra assistir uma maratona de Breaking Bad com um casal de amigos em comum que eu detesto.
   Eu certamente cuspi na manjedoura, dancei o lekeleke aos pés da cruz, cutuquei o cu da Virgem Maria. Só pode.

Ps. Josephinne acaba de bater na minha porta, toda sorridente, perguntando se não vou me juntar à eles lá embaixo nas festividades. Eu vou. vou tomar mais analgésicos, antiespasmódicos e antiácidos, vou encher a cara de cana e seja o que Deus quiser. Talvez o final do jantar seja melhor que o final de Breaking Bad. Watch this space.
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