Wednesday, October 30, 2013

     Domingo de manhã, a Duquesa de Deptford, do alto de sua duvidosa empáfia, me veio com um papo autoritário e superior me exigindo um empadão. Eu me fiz de surdo. Acontece que a nossa Duquesa(ela exige maiúculas) não desiste fácil e desde então volta e meia me mandava uma indireta, dizendo estar com vontade de um bom comfort food, que uma pie cairia ótima com um bom vinho e coisa e tal. Eu continuava a fingir ignorância.
    Ontem, ela finalmente desceu do seu pedestal de madrepérola e praticamente me implorou pelo meu empadão, ou, em suas próprias palavras: "your gorgeous, heart warming chicken pie". Me mandou e-mails no trabalho, deixou mensagens no celular. Eu me apiedei.  Passei no supermercado depois do trabalho e me enfiei na cozinha, fui preparar a delícia.
    Meu empadão é um colosso. E causa reações apaixonadas. Trata-se de um fenômeno culinário, um assombro, obra de arte. De se comer chorando, de se ajoelhar, devia sair na capa do New York Times como solução diplomática para o conflito no oriente médio.
   E eu, quituteiro vaidoso que sou, estimulo a demanda, raramente o fazendo, no máximo umas três vezes por ano, em ocasiões muito especiais. Depois me sento, todo modesto, e aceito os cumprimentos e elogios. Contrito, humilde e austero feito protestante voltando da igreja na manhã de domingo. Funciona, os aplausos são sempre fartos, a grita é sempre geral e unânime: "estupendo", "sensacional", "magnífico".
    Até mesmo nossa Duquesa, acostumada ao luxo de faisões e cascatas de lagosta, se humilha e se arrasta diante de tamanho monumento. E ontem foi pra cama feliz e saciada, assim como um buda aliviado das áridas lentilhas da dieta do templo.
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