Wednesday, June 19, 2013

   Primeiro, eu me surpreendi, daqui de longe, com aquela voz vinda das ruas de lá.  Então fiquei curioso e fui observar. Em seguida cresceu em mim uma simpatia otimista, romantica, morna, esperançosa. Depois ficou um vácuo cheio de perguntas no ar. E eu fui tentar achar respostas, pedi opiniões, falei com amigos, li todos os jornais possíveis, voyer do facebook, telephone, tv. Que ritmo novo é esse? Que banda é essa? Quem vai cantar?   Respostas que eu não achei, tudo e todos muito confusos. E a voz não se fazia muito nítida ainda.
   A voz das ruas de lá parecia não saber se articular ou não estar muito certa do que fazia ou se tinha mesmo o que dizer. Um vago ultraje, uma raiva nebulosa, Quixote sem Sancho Pança, orquestra sem maestro. Eu coloquei tudo isso na conta da inocência, da inexperiência, do stage fright, do desejo meio hippie e  bonito de mudar o mundo, de ser feliz, de viver .
   Mas a voz da rua começou a engrossar, um desafino aqui, uma entrada na hora errada acolá... Foi quando eu comecei a me sentir desconfortável e fui de novo ouvir a voz, com mais calma, mais atenção.
    A voz começou a ficar agressiva, nervosa, careta, moralista. E ainda sem saber o que dizer. Haviam gritos, ganidos,  bossa jazz, funk, punk, barulhos diversos no ar. E de repente a voz engrossou de vez e eu quase morri de susto: Não era música. Era a estridência arrogante de monstro em gestação, a voz da inocência útil e burra, a voz das trevas, o  ovo da serpente, a voz do rebanho perdido no deserto esperando a vinda do novo profeta.
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