Sunday, February 24, 2013

    Você acorda no sábado de manhã e decide que vai apenas dar uma voltinha ali no Broadway Market e voltar pra casa, pra debaixo das cobertas, fingir que nem acordou. Você sabe que bem merece um dia nada, um dia zero, um dia não. Faz muito frio lá fora, tem pouca gente no mercado, uma coisinha parecida com neve cai desanimada  do céu, um vento rancoroso insiste em cortar a sua pele. Mas uma coisa puxa outra, alguém diz que vai alí comprar umas camisetas, você se lembra que não tem mais meias sem furos pra vestir, que suas cuecas estão todas velhas, puídas, embaraçosas. E você vai pra city, reclamando do frio, xingando o vento. Você compra toneladas de meias e cuecas, você acaba se convencendo precisar de um sapato novo, você gasta mais do que pode e deve, reclama mais do frio, você esqueceu de se vestir apropriadamente já que ia apenas ali no mercado e não trouxe o cachecol, você se esqueceu das luvas. O frio arde na pele. Você precisa ir ao supermercado, não há nada em casa pra se comer. Você procura um supermercado pelos arredores e não acha. No máximo um Sainsbury Local que não vende quase nada do que você quer. E você compra coisas de que não gosta realmente, só pra não ter que procurar, não ter que pensar: pasta, tomates, carne moída, azeitonas, croissants pro café da manhã de amanhã. Tem uma farmácia na estação de Liverpool Street, antidepressivos, analgésicos, condicionador. Seu Oyster card está zerado e você desce pra colocar crédito, facilitando a vida da segunda pela manhã na correria pro trabalho. Você compra cigarro. Já são quatro da tarde e alguém menciona fome. Você se lembra do Calamari daquele pop-up restaurant no Shoreditch Box Park. Você caminha no frio até lá, um cigarro atrás do outro, tentando esquentar os pulmões, acalmar a fome, parar de doer. O restaurante não existe mais, sumiu, desapareceu, apesar de estar lá até três semanas atrás. Você xinga mentalmente o restaurante e se lembra com saudade e fome do Calamari de três semanas atrás. Alguém sugere outro vietnamita na Shoreditch High Street e você concorda e vai, reclamando do frio e fumando um cigarro atrás do outro, depois de ter exigido que o restaurante tenha calamari no cardápio. Você tem várias sacolas nas mãos congeladas, sapato, meias, cuecas, pasta, tomate, antidepressivo, analgésicos. Você esqueceu das luvas e do cachecol. O restaurante tem calamari. E uma certa alegria aparece desconfiada no canto do seu sorriso. Calamari, Spring Rolls, Chicken Curry, Vermicelli pork soup. A pimenta arde os olhos, arde a garganta, dói no esôfago, queima o estômago. Você mentalmente se diz que o arder é ok, é o preço que se paga pelo gosto delicioso da comida. Você sai desesperado do restaurante, ardendo e cansado, você fuma um cigarro atrás do outro. Você vai pra casa andando, pra ver se o exercício ajuda a digestão, porque você está se sentindo pesado e lento. Você amaldiçoa o frio. Em casa você nota que o aquecedor te deixa mole, cansado, com uma dor de cabeça pequena e chata. Você desliga o aquecedor, toma um analgésico. Faz frio. Você passa pelo microondas na cozinha e vê as horas refletidas no vidro da porta. Você olha pras sacolas na bancada, tomates, pasta, paracetamol. Você não vai cozinhar, você está com dor de cabeça e você já comeu. Na bancada da cozinha, tomates se misturam com meias, sapatos com azeitonas. Tudo é um espanto. O que foi que eu fiz? Por que o dia já acabou?
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