Friday, February 03, 2012


    Do outro lado da janela as pessoas parecem continuar com suas vidas rotineiras, indo pro trabalho, dentista, psicanalista. Eu olho pela fresta da cortina e vejo os outros lá fora, todos encasacados, parecendo pacotes almofadados, toucas, luvas, cachecóis. Trêmulos mas livres, corajosamente enfrentando temperaturas glaciais. Faz um frio de congelar os ossos. E no entanto é um dia lindo, ensolarado, luminoso, de um céu azul sem nuvens.
   Aqui dentro eu morro uma morte desconfortável, lenta, muito dolorida. E me desespero. Cancelei o trabalho de ontem pela noite e antes de dormir deixei instruções com a Duquesa de Deptford caso o pior me aconteça. Eu quero ser cremado. E que minhas cinzas sejam transformadas em fogos de artifício, que os amigos se reunam pra beber, rir. E que se  lembrem de mim  com carinho e sem lágrimas. E que acendam as cinzas e eu voe pelos céus finalmente livre dos horrores desse mundo.
   É que desde ontem eu tenho todas as dores possíveis, o corpo inteiro dói. A garganta  e os olhos ardem, a cabeça parece querer explodir, a respiração é complicada e lenta. Além da febre, dos arrrepios e desse cansaço maior que minhas forças. A minha vida virou uma rotina nefasta de lenços de papel, catarros, secreções amarelo esverdeadas. O aquecimento me resseca os pulmões e a pele, mas se o desligo o frio é ainda muito pior. Queria ter energia pra ao menos tomar um banho, me trocar, me embalsamar em mil casacos, ceroulas e meias e sair por aí, dar umas voltas, ver o mundo pela última vez. Mas temo pelo pior e sou covarde, vou mesmo ficar por aqui com minhas agonias de moribundo. A morte é um espetáculo pequeno, mesquinho, cheio de ressentimentos para com aqueles que vão sobreviver.
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