Friday, September 21, 2012

    Te Deum:
  • A santa que ia de casa em casa, naquela caixa de madeira marron escuro envernizada e brilhante. Novena.  A cruz no topo da caixa, o vidro protegendo a estátua. A casa imaculadamente limpa, as velas acesas, flores nos vasos, o clima severo e respeitoso no ar. E ela. Séria, resignada aos poderes divinos sobre suas misérias, Brylcream no cabelo sem um fio fora do lugar, aquele véu cinza e negro lhe encobrindo parcialmente o rosto, quase masculina em sua simplicidade puritana e seu quase martírio cristão.
  • Enormes estandartes rôxos, com franjas douradas e letras romanas, o sol escaldante pelas ruas sem árvores daquela cidade, os cantos, orações. Aqueles rapazes nazistas fanáticos sem sequer transpirar em seus ternos impecáveis, suas camisas engomadas e suas gravatas escuras, seus cabelos curtos e afiados, gritando apocalípses variados em seus megafones brancos: Salvem a Lituânia das garras dos comunistas, livrem o Brasil dos subversivos em nome de nosso senhor e de sua mãe Maria. A procissão/serpente inchando as pequenas artérias da cidade amedrontada. A população acuada em suas humildes varandas de gente pobre. Aqueles senhores soturnos e sombrios e seus abaixo assinados contra a lei do aborto. E ela, mãe de mais filhos do que podia alimentar, assinando contrita aquele papel. Em nome de Jesus.
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