Sunday, July 24, 2011

Entre o sonho e o acordar, naquele estado nebuloso dos primeiros momentos do dia, ainda na cama por mais dez minutos, mais vinte, meia hora, as nuvens da minha mente, frias e delicadas, me deixaram brincar de viver no limbo. E eu imaginei absurdos. Ali, rolando na cama, nas nuvens, tudo era ainda possível. E eu imaginei que dirigia a Tilda Swinton em Medéia no teatro. Ora vejam vocês, se é pra fantasiar eu não ia fazer por pouco. E eu e Tilda nos demos muito bem, thank you very much. Descobrimos que ambos odiávamos cenários e queríamos o espetáculo num perfeito cubo branco, sem móveis, sem objetos, nada, absolutamente vazio, apenas Tilda e seu corpo, sua voz. E a sua Medéia era seguida pelo palco por câmeras de CCTC, claustrofóbica, sem escape. O barulho metálico das câmeras como trilha: Tziii, tzii, tzii. O branco frio do interior do cubo, a precisão cirúrgica do movimento das câmeras, o mundo lacrado daquela mulher morrendo de dor como espetáculo de reality TV. E Tilda numa toga negra de veludo molhado por fora e vermelho sangrento por dentro, que ela vestia ao avesso pra cena mais cruel e virava uma Medéia vestida de sangue por fora e luto por dentro. A nossa Medéia não tinha Jasão traidor e fraco, não tinha ninguém ou nada, apenas aquela dor enorme, aquela estranha voz e uma enorme fome de destruição. A nossa Medeia tinha cabelos de Medusa, cobras e lagartos. E eu fiquei horas na cama assim, solucionando os problemas estéticos de um espetáculo imaginário. E não venham me falar de vida real.

Ps. Essa é pra você Winehouse, you should've been stronger. 
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