Sunday, September 19, 2010

Eu gosto de descrever coisas. Pra absorver melhor, pra mergulhar além da superfície. Pra observar, absorver, chupar, lamber, tocar. Pra poder digerir a aparência e o conteúdo, os pesos e as medidas. E vomitar e cuspir se se fizer necessário, se me causar enjôo. Eu gosto de descrever as coisas, os objetos, a mesa na minha cabeceira com suas gavetas de sonhos dobrados simetricamente, os grandes lustres na sala com sua frieza branca imóvel, o envelope pardo aberto rasgado guardando ameaças e delírios, possibilidades. Gosto de descrever a temperatura fria acinzentada do fim de tarde no começo do outono, a caneta sobre o dicionário. As coisas e os objetos me localizam geograficamente, me situam, me dão um chão firme, uma plataforma pra possibilidade de rearranjar no espaço as constelações. As coisas e os objetos, quando por mim descritos, me dão temperatura, me ensinam a pele, o toque, o espanto das texturas. Descrever objetos é como construir parábolas. Ou como declamar a engenharia dos castelos de areia.
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